A floresta devastada

Iracema - Uma Transa Amazônica

A destruição em nome do desenvolvimento é a questão que move o clássico brasileiro Iracema – Uma Transa Amazônica (1974). Como Em Busca da Vida, o filme de Jorge Bodanzky e Orlando Senna trata de uma devastação planejada. No caso brasileiro, uma devastação planejada pelo regime militar instalado em 1964 com sua política de integração nacional e ocupação da Amazônia. Iracema combina ficção e documentário de maneira prodigiosa, fazendo com que seus personagens principais atuem também como entrevistadores e provocadores de denúncias do desmatamento e da exploração indiscriminada dos recursos naturais. A abertura da rodovia BR-230, a Transamazônica, ensejava a dilapidação da floresta e deixava no seu rastro miséria e terra arrasada.

 

Paulo César Pereio vive o caminhoneiro Tião Brasil Grande, entusiasta da abertura de estradas e predador contumaz. Em viagem para transportar madeira (inclusive madeira de lei, de extração proibida, em carregamentos clandestinos), ele conhece em Belém a jovem Iracema (Edna de Cássia) e a leva na boleia do caminhão. Em certo ponto do caminho, exige que ela desembarque. Tempos depois, vai reencontrá-la vivendo entre prostitutas de beira de estrada.

 

O modelo do road movie permite que Tião estacione em diversos pontos da Amazônia, onde vai ironicamente estimular conversas sobre a grilagem de terras, a transgressão às leis de proteção da floresta, a arregimentação de trabalho escravo e a falácia dos grandes empreendimentos que pretendiam "tomar conta da Amazônia". Slogans ufanistas do governo como "O país que vai pra frente" e "Ninguém segura esse país" contrastam com o panorama de pobreza, saque e degradação exposto ao longo da viagem.

 

Essa exposição se dá em dois tipos de regime. De um lado, há o registro de cenas que não se integram à narrativa ficcional, como tratores avançando no meio da selva e uma tomada dantesca de floresta ardendo em chamas. Nesses casos, o filme se vale da liberdade com que oscila entre a ficção e o documentário. De outro, há os trechos que mais nos interessam aqui, nos quais o flagrante documental está organicamente inserido na fabulação de Tião e Iracema. Um dos planos mais célebres do filme é um travelling de 40 segundos, filmado supostamente da janela do caminhão de Tião, de uma queimada extensa que levanta gigantesca nuvem de fumaça. A edição dessa tomada após um plano geral do caminhão na estrada integra à perfeição os dois registros (veja a cena em Cinegrafia recorrente).

Iracema - Uma Transa Amazônica
Iracema - Uma Transa Amazônica

Se o travelling da queimada constitui um flagrante da catástrofe em seu pleno desenrolar, mais adiante teremos um exemplo de cenário pós-catastrófico, também este filmado a partir de um veículo. Um avião que supostamente transporta as prostitutas Iracema e Teresa (Conceição Senna) para a fazenda de "um americano" sobrevoa uma ampla área de floresta já devastada. Somam-se a isso as diversas cenas que envolvem grandes contingentes de toras e placas de madeira para configurar uma paisagem de dilapidação.

Iracema - Uma Transa Amazônica
Iracema - Uma Transa Amazônica

​Produzido para a televisão alemã ZDF, Iracema - Uma Transa Amazônica passou sete anos censurado no Brasil mas teve grande circulação internacional e um papel pioneiro na denúncia visual da catástrofe amazônica patrocinada pela ditadura brasileira. A estrada, nunca concluída, continuou sendo objeto de debate nas décadas posteriores, como se pode ver na telessérie documental Transamazônica – Uma Estrada para o Passado, realizada entre 2016 e 2019 por Jorge Bodanzky e Fabiano Maciel.   

<< Anterior: No vácuo do 11 de setembro          Próximo: A alegre enchente >>

Voltar ao Sumário