Barragens: construção e destruição

Em Busca da Vida / Rhapsody on Farewell / Quando a Terra Treme

Dentro do universo dos filmes pós-catástrofe existe uma espécie de subgênero relacionado à construção e rompimento de barragens. No primeiro caso, o erguimento de grandes represas muitas vezes implica na destruição e inundação de cidades inteiras. No segundo, a ruptura de uma eclusa pode provocar desastres incomensuráveis. 

 

Sobre o tema da construção de barragens debruçaram-se realizadores como Alexander Dovjenko (Poema do Mar), Manoel de Oliveira (Hulha Branca e 1 Século de Energia), Jean-Luc Godard (Opération Béton), Agnaldo "Siri" Azevedo (Adeus, Rodelas), Roberto Rossellini (Índia: Matri Bhumi), Jorge Bodanzky e Orlando Senna (Gitirana), Daniel Nolasco (Paulistas), Cris Azzi (Sumidouro) e Eliane Café (Narradores de Javé). Em documentários e ficções, retrataram as obras e o drama das populações deslocadas. Sobre o assunto, vale a pena ler este ensaio de Lúcia Ramos Monteiro.

 

 

Fengjie, onde os tempos se encontram

 

No campo da ficção, um exemplo digno de nota é Em Busca da Vida (Sanxia Haoren/Still Life), de Jia Zhang-ke, realizado em 2005. Os dois personagens centrais do filme são um operário e uma enfermeira que chegam ao distrito de Fengjie, às margens do Rio Yangtsé, à procura de seus respectivos cônjuges. Sanming (Han Sanming) não via sua mulher – que ele havia "comprado" por 3 mil yuans – desde que ela o deixou 16 anos atrás. Shen Hong (Zhao Tao), separada do marido já por dois anos, quer pedir-lhe o divórcio. Os dois experimentam um vácuo  temporal entre duas etapas de suas vidas. É a mesma condição em que está Fengjie.

 

As obras de construção da gigantesca hidrelétrica de Três Gargantas estão em pleno vapor. Parte da cidade já foi coberta pelas águas, justamente onde residia a mulher de Sanming. Operários trabalham na demolição de vilarejos que ainda vão ser inundados, enquanto moradores reclamam por realojamento e indenização. Ali perto, arqueólogos fazem escavações em busca de vestígios de antigas dinastias. Ou seja, Fengjie é um lugar onde passado, presente e futuro parecem se encontrar sem que nenhum deles se sobreponha aos outros. Tal e qual acontece com Sanming e Shen Hong.

Em Busca da Vida

Eis um caso típico em que a destruição se apresenta como recomeço, incorporando o sentido duplo da noção grega de catástrofe. Nada aqui acontece como fruto do acaso, nem da Natureza, nem tampouco da guerra ou da incúria humana. É antes o que poderíamos chamar de "catástrofe do progresso", aquela produzida efusiva e deliberadamente, em troca de uma ideia de progresso futuro. Fato característico das imensas transformações por que passava a China nas décadas de 1990 e 2000. Como efeito colateral desse icônico empreendimento da Nova China, encontramos miséria, desenraizamento e perda de heranças culturais. Em Busca da Vida mostra o processo de construção das ruínas pelas quais transitam os personagens e seus casamentos arruinados. De debaixo de um dos montes de tijolos acumulados num prédio semidemolido vem o ruído do celular de um homem morto em acidente, que é velado ali mesmo, entre os destroços.

 

No entanto, a vida continua em meio à derrubada geral. A Sanming são oferecidos os serviços de prostitutas, que se exibem emolduradas pela carcaça de um edifício. Em outra cena, Sanming e sua ex-mulher se encontram à borda de um rombo na parede de um prédio, de onde se divisam outros edifícios, um dos quais sucumbe a uma implosão em efeito digital. Em seu ensaio sobre filmes de barragem, Lúcia Ramos Monteiro destaca o caráter dúbio dessas obras: "As barragens são catástrofes tanto de destruição quanto de conquista."

Em Busca da Vida
Em Busca da Vida

Cabe, por fim, ressaltar a irrupção de elementos de ficção científica, que Zhang-ke atribui ao caráter surreal das obras em Fengjie. Além de um disco voador que sobrevoa o local e do efeito visual que mostra um homem caminhando numa corda esticada entre o topo de dois prédios, há o esqueleto de edifício que, depois de aparecer em diversas sequências, finalmente "decola" como se fosse um foguete espacial. A ruína, então, transcende o seu caráter eminentemente realista para mudar de gênero e indicar uma visão irônica da noção de desenvolvimento.      

 

 

Adeus, minha cidade

 

A derrubada e inundação de pequenas cidades chinesas para a construção da barragem de Três Gargantas foi tema obsessivo de certa fase da obra da artista visual chinesa Chen Qiulin, explorado em fotografias, filmes e instalações. O dispositivo principal de Qiulin era inserir seu corpo em meio aos escombros, trajada em roupas contrastantes com o cenário. Ela realizou quatro vídeos curtos a propósito da parcial demolição de sua cidade natal, Wanxian, às margens do Rio Yangtsé. Rhapsody on Farewell (2002), River, River (2005), Color Lines (2006) e The Garden (2007) retratam quatro fases das transformações com diferentes aportes performáticos somados à documentação das obras. 

 

Em Rhapsody on Farewell (Bie Fu ou "Rapsódia do adeus"), o único dos quatro vídeos a que tive acesso integral, a artista reproduz, em montagem muito fragmentada, a própria dinâmica da desconstrução. Cenas da população que ainda vivia na cidade se alternam em ritmo rápido com imagens dos trabalhos de demolição das construções e com tomadas de atores se maquiando ao som de trechos da clássica ópera Adeus, Minha Concubina. Instala-se aí uma oposição entre a destruição da antiga cidade e uma tradição que se renova através da reencenação da ópera. Ao mesmo tempo, o destino trágico da concubina Yu, que se suicida com a espada do seu amante após este perder uma batalha, confere fatalidade às imagens da cidade moribunda.    

 

A autora-performer aparece em duas figurações. Numa, está vestida como a concubina Yu, girando o corpo em meio aos destroços de um antigo teatro. A edição sugere que ela está sendo assistida por algumas crianças, que personificariam a infância da artista vivida naquela localidade. Em outros momentos, ela traja um vestido branco simples e corre entre as ruínas como uma garota qualquer, em preto e branco. Os sons da ópera se revezam com os ruídos da demolição e com o alarido da cidade. 

 
Rhapsody on Farewell
Rhapsody on Farewell

Rhapsody on Farewell pode ser visto neste link. O vídeo guarda semelhanças com Pedra Brutade Julia Zakia, gravado em Mostar, sobretudo pela presença da performer Georgette Fadel em roupas de cigana evoluindo entre as ruínas da cidade bósnia.  

 

Chen Qiulin tinha 27 anos quando fez Rhapsody on Farewell com uma pequena videocâmera da família. Pelas leituras que fiz e as imagens que vi, os vídeos seguintes se sofisticaram e incorporaram outros personagens nas performances. River, River mostra as novas construções em andamento enquanto dois adolescentes e personagens de ópera parecem buscar referências entre os escombros remanescentes. Em Color Lines, rodado na província de Zhongxian (um dos últimos locais a serem inundados), Qiulin volta a aparecer como o fantasma de uma casa prestes a ser demolida. Por fim, The Garden mostra operários deambulando nas margens do Yangtsé com grandes vasos de flores nas mãos. Na cultura tradicional chinesa, as flores têm um amplo espectro simbólico, que vai do amor e da fortuna à morte e à renovação. The Garden incorpora também a presença fantasmática do casal do lendário Romance da Cobra Branca, em que uma fada celestial e uma cobra assumem feições humanas e vivem um amor conturbado. Tudo, portanto, gira em torno de destruição, transformação e renovação.

Colour Lines

Color Lines

 

Um tsunami de lama

O rompimento catastrófico de uma barragem é tristemente exemplificado pelo caso brasileiro da empresa Samarco, responsável pela maior tragédia ambiental do Brasil até então. Em 5 de novembro de 2015, a barragem de Fundão, destinada a conter rejeitos de mineração, rompeu-se e provocou um tsunami de lama que destruiu três municípios de Minas Gerais e danificou seriamente o ecossistema do Rio Doce. Foram contabilizados 19 mortos, centenas de desabrigados e uma pessoa desaparecida.

 

Walter Salles e a roteirista Gabriela Amaral Almeida imaginaram que esse desaparecido seria um pai de família, ponto de partida do roteiro do curta-metragem Quando a Terra Treme (2017), que integra o longa internacional em episódios Em que Tempo Vivemos? (Where Has the Time Gone?). Foi filmado um ano e meio depois do desastre.

 

Acordados pelo rumor e o tremor das grandes ondas de lama, pai, mãe e filho fogem pela mata, quando o homem desaparece. Nos meses seguintes à tragédia, a mulher (Maeve Jinkings) o dá como morto e esboça namoro com um funcionário que faz vistorias na área. O filho não aceita a ideia e insiste em esperar pelo reaparecimento do pai. Parte do filme se passa numa reconstituição do centro de acolhimento dos desabrigados e parte se desenrola no cenário coberto de lama do município de Paracatu de Baixo.

Quando a Terra Treme

A devastação aparece em fotos dramáticas de 2015 e nas caminhadas do menino Guto (Richard Santiago) e de sua mãe, uma professora que teve sua escola destruída. Quando a equipe chegou ao local, em 2017, grande parte da região já estava coberta por uma vegetação leve de crescimento rápido, plantada pela empresa encarregada de maquiar a área. Um trecho, porém, havia sido mantido no estado aproximado em que ficou após a destruição. O diretor de arte Marcos Pedroso comandou o trabalho de "restauração das ruínas", desencavando destroços e adicionando dejetos e lama ao cenário. O procedimento se assemelha ao de Abbas Kiarostami em E a Vida Continua. Para recompor o panorama original pós-catástrofe colaboraram as indicações de diversas pessoas que habitavam o local.

 

O que se vê, então, é um labirinto de paredes sem telhados, nem portas ou janelas (em parte retirados pelos moradores para reaproveitamento) em meio a um mar de lama ressecada. Guto frequenta às escondidas uma ruína, onde deposita regularmente comida para um eventual retorno do pai. A mãe, por sua vez, percorre o lugar em companhia do funcionário, indicando o que era cada construção e seus respectivos proprietários. Ela visita a escola onde ensinava, também um misto de escombros e cenografia.

Quando a Terra Treme
Quando a Terra Treme

A ausência de sinais de reconstrução e a permanência de um grande contingente de pessoas no abrigo durante seis meses insinua o que seria a longa espera dos moradores por casa, emprego, reparação financeira e responsabilização dos culpados. 

 

Os vestígios de Bento Rodrigues serviram de cenário também para A Serpente, adaptação da peça de Nelson Rodrigues que eu abordo no módulo Modo ressignificante.   

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