Histórias de água e lama

Acqua Movie / A Serpente / A Praia do Fim do Mundo

A inundação de cidades para a construção de represas foi objeto de vários documentários brasileiros, mas aparece pouco em filmes de ficção. Um exemplo interessante é Acqua Movie (2019), de Lírio Ferreira, que tematiza a transposição das águas do Rio São Francisco. Os dados reais, porém, são dissolvidos numa combinação ficcional. As cidades fictícias de Rocha e Nova Rocha são inspiradas, respectivamente, em Petrolândia (PE), inundada em 1987 para a construção da Usina Hidrelétrica Luiz Gonzaga, e Nova Petrolândia, para onde a população do município foi transferida conforme o padrão dessas efemérides.

 

A história de Acqua Movie é uma continuação oblíqua da trama de Árido Movie (2005), do mesmo diretor. Após a morte do seu pai em São Paulo, o menino Cícero (Antonio Haddad) exige da mãe, Duda (Alessandra Negrini), que leve as cinzas do falecido a sua cidade natal no Nordeste.

 

Na viagem, a relação difícil entre o garoto e a mãe, uma fotógrafa e documentarista assoberbada de trabalho, atinge um ponto de ebulição. Cícero se deixa seduzir pelo tio-avô (Augusto Madeira), um neo-coronel nordestino, prefeito despótico de Nova Rocha. Duda resiste, tentando encaminhar o filho para as ideias progressistas e defendendo a causa dos indígenas ameaçados pelos latifundiários.

 

Em conversa com um líder indígena, Duda ouve críticas à transposição do rio, embora ela própria tenha consciência formada de que o povo da região precisava da água agora abundante. Os efeitos danosos sobre o rio, porém, são sugeridos numa cena em que Duda mostra ao filho um longo canyon seco. "Você não queria chegar ao fim do mundo? Aí, ó. Bem-vindo ao fim do mundo!", exclama. A câmera, então, irrompe entre os paredões do canyon, lembrando uma passagem famosa de Baile Perfumado (1996), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas. As filmagens dessa cena se deram num trecho de canal da transposição, nas redondezas de Salgueiro (PE). Veja no final desse clipe.

Acqua Movie

Em outro momento marcante de Acqua Movie, Cícero passeia de barco com crianças indígenas no lago que cobre Rocha, a antiga cidade do seu pai. A única porção ainda visível é parte de uma igreja submersa. A locação eram as ruínas das obras de edificação (nunca concluídas) do que seria a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Petrolândia, hoje tombadas pelo patrimônio histórico. A queda do celular de Cícero nas águas propicia uma visão deslumbrante das fundações da igreja no fundo do lago.

Acqua Movie

Noiva agônica em Mariana

 

A paisagem arrasada pelo rompimento da represa de Mariana (MG), tratada referencialmente em Quando a Terra Treme, ganhou uma abordagem ressignificante no prólogo do longa-metragem A Serpente (2016). Inspirado pelas imagens evocativas de Hiroshima Mon Amour, de Alain Resnais, o diretor Jura Capela criou uma metáfora para a ruína emocional a que os personagens são levados pelo remorso, o ciúme e a culpa.

 

Última peça de Nelson Rodrigues, A Serpente coloca no centro da cena a figura da cunhada, que em sua obra representa eterno objeto de desejo recolhido e ciúmes torrenciais. Lígia (Lucélia Santos) casou-se com um homem impotente e permanece virgem depois de um ano. Pensa em se matar, quando a irmã Guida (também Lucélia) lhe oferece a salvação: uma noite de sexo com seu marido (Matheus Nachtergaele). A boa ação fraternal, porém, vai se transformar num inferno para o trio. 

 

Jura Capela obteve autorização para filmar nas ruínas da vila de Bento Rodrigues apenas um mês depois da catástrofe. Queria que aquela "ferida aberta do Brasil" fosse vista. O prólogo já anuncia o tom do filme, que é exasperadamente teatral. Uma tomada de drone descortina uma grande área devastada, onde se vê esqueletos de casas destelhadas em meio a um mar de lama e destroços. À medida que a imagem perde altura, identificamos a figura de uma mulher solitária. É Lucélia Santos, que caminha com a longa cauda do vestido de noiva arrastando-se no lamaçal (veja a cena em Cenografia recorrente). Ela emite um choro de agonia, como se estivesse diante de uma grande perda. Em seguida, a vemos no interior de uma das casas destruídas, ainda com o vestido limpo, um buquê nas mãos e um retrato antigo de casal na parede detrás dela. Por fim, a mulher (Guida ou Lígia?) amarra uma pedra ao seu corpo e se atira no fundo de um rio ou lago.

 

O contraste do vestido branco da atriz com o panorama barrento ao redor fica ainda mais forte na fotografia monocromática. Há um quê de espetacular nessa inserção muito estilizada, que procura no desastre real um aditivo dramático para a ficção. O fato de não se voltar mais àquele cenário no resto do filme isola esse prólogo como um adendo onírico ou puramente simbólico.

A Serpente
A Serpente

Um mar devorador

 

As praias de Atafona, na costa do Rio de Janeiro, e do Icaraí, no estado do Ceará, são vítimas de um processo de erosão que se agravou a partir da década de 1990. Uma conjugação de fatores como o aquecimento global e intervenções feitas pelo homem no ecossistema aquático das regiões fez com que o mar avançasse vorazmente pela faixa de terra, destruindo casas, expulsando moradores e comprometendo a infraestrutura turística. Ambas as praias adquiriram feições de paisagem apocalíptica.

 

Essas duas localidades foram usadas por Petrus Cariry para representar a fictícia praia de Ciarema no filme A Praia do Fim do Mundo (2021). Uma mãe e uma filha vivem numa casa, antiga pousada, ameaçada pelo avanço do mar. A desavença entre as duas sobre sair ou não dali reflete o que acontece de fato nas praias reais afetadas por essa catástrofe lenta e progressiva. Alice (Fátima Muniz) está grávida e quer deixar o lugar, mas Helena (Marcélia Cartaxo) está presa numa mortalha de luto pelo marido que desapareceu no mar enquanto estudava as ressacas.   

 

Numa leitura mais simplória, Helena é o passado, enquanto Alice seria o presente gestando o porvir no ventre, embora pareça contemplá-lo apenas de longe, como por uma luneta. Mas o filme não pode ser resumido a isso, por conta de suas ressonâncias físicas e metafísicas. No plano concreto, há o mar devorando casas numa praia outrora destinada a ser um polo turístico. Os moradores estão abandonando o lugar, mas não todos. Alice tem uma amiga muito querida, Elisa (Larissa Góes), que permaneceu ali quando os pais se foram. Ambas têm ligação com o ativismo ambiental.       

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No plano metafórico há o mito de Jonas e a baleia. O mar é uma entidade que engole a tudo como a baleia mítica que engoliu Jonas por ter desobedecido a Deus. A Natureza destruidora, portanto, seria a manifestação dos desígnios divinos. A presença meio sobrenatural de um velho catador de garrafas plásticas (seria o pai de Alice?) contagia o ambiente com uma energia mágica.

 

Com uma extraordinária fotografia em preto e branco dirigida por ele mesmo, Petrus Cariry faz uma combinação coesa dos dois cenários naturais, explorados seja nas deambulações de Fátima e Elisa, seja em belas tomadas puramente descritivas. As carcaças de construções e as pilhas de destroços se acumulam à beira-mar. Uma balaustrada arrebentada aqui e ali dá conta da insegurança causada pela destruição. Fátima, Helena e Elisa habitam espaços a meio caminho entre casa e ruína, entre o que ainda resiste e aquilo que já se decompôs.   

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A Praia do Fim do Mundo

Numa cena, mãe e filha assistem na TV a uma reportagem sobre o desastre de Ciarema, com imagens das ondas invadindo os restos das propriedades e relato dos prejuízos causados ao comércio, aos serviços e ao turismo. Na ocasião, Fátima alerta mais uma vez Helena sobre a urgência em abandonarem a casa, cujo piso da piscina já estava cedendo. Helena, contudo, teima em permanecer ali onde nasceu e se criou, numa das poucas vezes em que quebra seu silêncio de morte. 

 

O fragor do mar batendo contra os barrancos e os escombros das casas já demolidas contrasta com o ritmo lento da narrativa de slow film. Sobre essa paisagem desolada estende-se um céu sempre plúmbeo, carregado de nuvens pesadas. As epifanias de luz e o tratamento sonoro inquietante suspendem a atmosfera para acima do nível realista.