Vivos e mortos na Louisiana

Glory at Sea / Indomável Sonhadora

O cineasta norte-americano Benh Zeitlin, integrante do coletivo Court 13, encontrou na Louisiana traumatizada pelo furacão Katrina (2005) inspiração para dois filmes rodados na região pantanosa dos bayous. Ao contrário de Zack Godshall, que se referiu diretamente ao evento em Low and Behold, Zeitlin o ressignificou em histórias sobre superação e afeto familiar com ingredientes de realismo mágico.

 

O curta Glory at Sea ("Glória no mar") foi realizado no ano seguinte ao do furacão. O filme é narrado por uma menina morta, cujo corpo se encontra no fundo do mar, assim como os de tantos moradores tragados pela enchente. Um homem consegue emergir das águas e começa a construir um barco para voltar ao mar em busca da mulher amada. Os sobreviventes das redondezas se juntam a ele no projeto, contribuindo com todo tipo de material.

 

São poucas as imagens de devastação propriamente dita, restritas a uma sequência rodada nos destroços de algumas casas e ao panorama desolado das terras inundadas meses antes. Mas Glory at Sea sugere que todos os artefatos e utensílios usados na construção do barco – móveis, banheira, tonéis, colunas de madeira e até instrumentos musicais – seriam rescaldos da catástrofe, bens pessoais cedidos pelos sobreviventes. O grupo sai à deriva, contrariando os conselhos de um pastor, e logo a estranha embarcação começa a se desfazer com o vento e o movimento das águas. A viagem ganha tonalidades místicas à medida que os vivos vão mergulhando ao encontro dos seus entes queridos, que por sua vez revivem nos abraços subaquáticos.

Glory at Sea
Glory at Sea

Glory at Sea: o barco construído com rescaldos do furacão

 

Teor semelhante de fantasia tinge o longa Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild), filmado em 2010 e lançado em 2012. As semelhanças com Glory at Sea são muitas e evidentes, incluindo as locações em Terrebone Parish, alguns moradores da região no elenco não profissional, o alto astral um tanto selvagem dos personagens, o trabalho instável da câmera, a narração por uma menina e o vínculo entre a morte e as águas. A pequena Hushpuppy (a revelação Quvenzhané Wallis, que seguiria carreira como atriz e modelo infantil) vive com o pai, Wink (Dwight Henry) numa casa depauperada da "Banheira", como é conhecida aquela área dos bayous. Wink dá lições rudes de sobrevivência à filha, na certeza de que um dia a grande tormenta chegará e ela precisa estar preparada. A voz da própria Hushpuppy prevê: "Um dia a tempestade virá, o chão vai afundar e a água vai subir tão alto que não existirá mais a 'Banheira'".

 

A comunidade local, contudo, não se abate com tais premonições. Vivem em festa, bebem sem moderação. Quando chega o alerta de enchente, Wink e Hushpuppy estão entre os que decidem ficar. Enfim, as represas arrebentam e as águas inundam tudo. Os sobreviventes procuram uns aos outros e resistem às ordens de evacuação. Wink está doente e sua saúde se agrava progressivamente. A menina tenta se manter um "animal forte", conforme as orientações paternas. Sugestionada por essa imagem de força e pelas explicações de uma professora sobre desenhos rupestres pré-históricos, ela passa a ver bisões fantásticos saídos do degelo das calotas polares à procura de comida. Ao mesmo tempo, Hushpuppy sonha em reencontrar a mãe, que saiu pelo mundo. Com a morte do pai, ela cumpre o desejo dele de ter seu corpo queimado num barco solto à deriva.

Indomável Sonhadora

Embora filmado cinco anos depois do cataclismo, Indomável Sonhadora ainda tira partido de destroços remanescentes. Após salvarem-se da inundação, pai e filha escapam pelo teto da casa e saem no seu barco – que, por sinal, também é composto por uma carcaça de camionete e outros apetrechos, à semelhança daquele de Glory at Sea. No trajeto, passam por diversas casas derreadas e parcialmente cobertas pelas águas. Uma tomada aérea da região inundada foi certamente feita logo após o desastre e inserida no filme. Imagens de paredões de gelo desmoronando aparecem para ilustrar o raciocínio de Hushpuppy segundo o qual o universo funciona porque tudo está encaixado no seu lugar. A enchente da Louisiana, portanto, seria uma consequência remota do derretimento dos gelos polares pelo aquecimento global.

Indomável Sonhadora