Vestígios tóxicos em Chernobyl

Raspad / La Terre Outragée

 

Desastres por contaminação não costumam deixar rastros materiais passíveis de se transformar em locações cinematográficas. É o caso de pandemias, eventos químicos e acidentes radiativos, caracterizados por uma certa invisibilidade quando não repercutem no cenário físico. Daí não figurarem no escopo desta pesquisa. Ainda assim, acho interessante mencionar dois entre os vários filmes realizados a propósito da explosão no Reator 4 da Usina Nuclear de Chernobyl, em 26 de abril de 1986. A explosão, seguida de um grande incêndio, lançou nos ares uma enorme quantidade de material radiativo, que se espalhou por vários países da Europa e mesmo da América do Norte.

 

A produção ucraniana Raspad ("Desintegração", em tradução literal), rodada três anos após o acidente com direção de Mikhail Belikov, mobiliza três núcleos de personagens. Eles vivem os dias da catástrofe entre a capital Kiev e Pripyat, esta a cidade mais próxima da usina, a apenas 20 km. O efeito visível do desastre é a evacuação completa de Pripyat, cidade-dormitório dos trabalhadores de Chernobyl.

 

Raspad combina o drama de uma população enganada pelas autoridades com uma sátira feroz do orgulho soviético em seus últimos estertores. No clímax do filme, um grupo de voluntários e um jornalista penetram na zona de alta contaminação e sobrevoam por longo tempo a cidade totalmente deserta com sua geometria glacial. De repente, num artifício de montagem, avistam um menino sozinho escrevendo uma mensagem no asfalto: "Mamãe, eu estou aqui. Volte, estou esperando".

Raspad
Raspad

Os voluntários prosseguem rumo à usina, com tempo cronometrado para alcançar o reator e se fotografar empunhando uma bandeira vermelha e expondo-se ao risco máximo. Essas cenas foram filmadas no local mesmo da explosão. Embora tivessem se passado três anos, a radiação ainda era tão alta que o diretor adoeceu e teve uma perda temporária de todo o cabelo. A realização de Raspad se alinhava, assim, à vertente do turismo tóxico.

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Raspad: os atores no reator fatídico

Raspad faz um curioso paralelo entre as ruínas invisíveis de Chernobyl e as ruínas clássicas da Grécia. O jornalista que protagoniza o filme é de ascendência grega e, na sequência de abertura, exibe aos amigos um slideshow das ruínas gregas. Ao final, de volta de sua aventura na "zona", ele mostra os slides feitos no reator. Fica clara a aproximação entre o fim de duas culturas. Chernobyl e todo o caos tecnológico e moral representado no filme apontavam a desintegração da cultura soviética, que acontecia simultaneamente às filmagens em 1989. 

Cidade congelada, mentes perturbadas

 

Em 2011, Pripyat seria cenário de outro filme importante, La Terre Outragée ("A terra ultrajada"), da realizadora israelense Michale Boganim. O tema central são os reflexos do acidente radiativo sobre a saúde mental de pessoas que tiveram de deixar subitamente suas casas e seus bens para evacuar a cidade. O alerta tardio permitiu que muitos se contaminassem. Anya (Olga Kurylenko) tem sua festa de casamento interrompida pela partida do noivo bombeiro para conter um incêndio florestal. Os dois jamais voltarão a se rever e ela não poderá ter filhos

 

Depois de mostrar uma Pripyat quase idílica, mas já acometida pelos primeiros sinais da catástrofe (animais e arbustos mortos, chuva negra, incêndio na mata), o filme salta para dez anos depois, quando Anya trabalha como guia turística de excursões à "Zona" interditada, então habitada apenas por "colonos" que regressaram ou nunca saíram dali e imigrantes clandestinos. O trauma se manifesta na ansiedade de Anya e na sua indecisão amorosa entre um antropólogo francês em missão na Ucrânia (que representa sua oportunidade de evasão) e um velho amigo que personifica o enraizamento da população em Chernobyl.

 

Outros dois personagens se destacam pela perda da sanidade: um engenheiro que se sente culpado por ter sido conivente com o adiamento do alerta à população e agora vagueia sem rumo pela região; e seu filho, que cresceu obcecado pela memória do pai, da escola onde estudava e da macieira que acabara de plantar em 1986. Ao revisitar a escola em ruínas, o rapaz deixa um recado para o pai que se assemelha à mensagem do menino à mãe no asfalto em Raspad: "Papai, estamos em Slavutich" (a cidade para onde parte da população de Pripyat foi deslocada).

 

As derivas de pai e filho, mais os passeios de Anya e seus turistas ensejam a visão da cidade fantasma, onde a figura de uma menina aparece intermitentemente entre a realidade e a fantasia. O ônibus de turismo corta os amplos espaços nevados e sem vida de Pripyat, com seus grandes prédios desabitados e suas estruturas combalidas pelo abandono e pelas intempéries. A impressão de fim de mundo contrasta com a teimosia dos que ficaram ou voltaram, tomados por um apego telúrico que não descarta certa morbidez.

La Terre Outragée: o ônibus de turismo em Pripyat

La Terre Outragée: o ônibus de turismo em Pripyat

La Terre Outragée: a menina e o rapaz

La Terre Outragée: a menina (ao fundo) e o rapaz

 

O interesse turístico tampouco escapa ao fetiche do pós-catastrófico. A estátua de Lenin, um outdoor de Gorbachev e o congelamento da outrora radiante Pripyat oferecem um retrato melancólico do grande sonho soviético. 

       

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