Modo ressignificante

A atribuição de novos significados a cenários pós-catastróficos reais é uma operação eticamente delicada e, talvez por isso, pouco comum no cinema ficcional. O mais frequente é o uso de ruínas pontuais e já distantes no tempo com sentido metafórico ou por conveniência puramente cenográfica. No seu Orfeu (1950), por exemplo, Jean Cocteau filmou as cenas da "Zona" ("a terra de ninguém entre a vida e a morte, feita das memórias dos homens e das ruínas de seus hábitos") nas ruínas da antiga academia militar de Saint-Cyr, bombardeada pelos ingleses em 1944.

Orfeu

Orfeu, de Jean Cocteau

Andrei Tarkovski foi um cineasta especialmente interessado nessa operação. Quando coloca seus personagens em construções parcialmente destruídas, às vezes sem teto, Tarkovski invoca seu estado de incompletude (da construção e do personagem). São edificações abertas aos fenômenos meteorológicos, que ao mesmo tempo abrigam e desabrigam as figuras humanas, como notou Nariman Skakov: "O edifício arruinado é sempre um símbolo de nostalgia sentimental por algo que pereceu e está dolorosamente ausente – o objeto ou espaço desejado foi sempre removido".  

 

Nostalgia (1983), usa diversas locações dilapidadas da Toscana. Numa cena, o poeta Andrei Gorchakov declama um poema de Arseni Tarkovski, pai do cineasta, e trava um quase monólogo com a pequena Angela no interior da igreja inundada de San Vittorino, na localidade de Cittaducale. Em outra sequência marcante, Gorchakov tenta penosamente atravessar, com uma vela acesa na mão, a piscina (vazia) das antigas termas de Bagno Vignone. A imagem final do filme, puramente utópica, mostra a casa russa do poeta incorporada às ruínas da imensa Abadia di San Galgano.

Nostalgia - Igreja de San Vittorino

Nostalgia: Igreja de San Vittorino (acima) e Abadia di San Galgano (abaixo)

Antes de Nostalgia, Tarkovski havia filmado Stalker (1979) inteiramente na Estônia, recorrendo a logradouros abandonados e cenários de vestígios pós-industriais. A jornada dos três personagens os fazia passar por um terreno possivelmente minado, veículos bélicos calcinados, construções inundadas, um túnel decrépito e grandes galpões dilapidados. A "Zona", área proibida na qual os protagonistas penetram em busca de realizar seus desejos, teve como locação principal as ruínas da usina hidrelétrica de Jägala-Joa, desativada em 1970. Abundam interpretações sobre o sentido das locações de Stalker, variando das mais óbvias acepções metafísicas a uma previsão do colapso do estado soviético.

Stalker

​Stalker

   

É preciso destacar que os filmes de Cocteau e Tarkovski, aqui citados como simples ilustração, escapam à abrangência desta pesquisa, uma vez que não têm os cenários pós-catástrofe como eixo fundamental de sua dramaturgia. As locações de Stalker, mais extensivamente exploradas que as demais, estavam apenas desertas e malbaratadas pela falta de uso e o abandono. Não resultavam de nenhum tipo de desastre.

Da mesma forma, cineastas profundamente interessados em ruínas da civilização, como Werner Herzog e Theo Angelopoulos, não se enquadram neste estudo por não confrontarem ruínas do presente em suas narrativas de ficção.  

Nas próximas páginas, vamos examinar alguns casos em que as paisagens pós-catastróficas desempenham papel preponderante nas tramas ficcionais e adquirem novos significados, alguns verdadeiramente insólitos.

                                                          Próximo: Outro desastre, outros planetas >>

<< Anterior: A alegre enchente

Voltar ao Sumário

Nostalgia - Abadia de San Galgano