Outro desastre, outros planetas

Terra da Esperança / A Estrela Sussurrante

O japonês Sion Sono criou uma trilogia relacionada à tripla tragédia de 2011 em Fukushima, na ilha Honshu, a maior do Japão. Depois de se referir literalmente àquela catástrofe em Himizu (2011), ele atribuiu outros significados aos cenários devastados pelo tsunami em Terra da Esperança (2012) e A Estrela Sussurrante (2015).

 

Para Terra da Esperança (Kibô no Kuni), o cineasta imaginou outro desastre semelhante num futuro próximo. Os moradores de algumas cidades da província fictícia de Nagashima são obrigados a deixar suas casas depois que um sismo e um tsunami provocam uma explosão em usina nuclear próxima. As semelhanças levam as pessoas a repetirem "Você se lembra de Fukushima?", numa insinuação de que os japoneses com frequência se esquecem de suas fatalidades passadas. As mensagens de tranquilização do governo, os estímulos otimistas da TV e mesmo as orientações dos médicos não merecem crédito, uma vez que foram enganosas no episódio real de 2011.

 

As autoridades interditam e ordenam a evacuação da cidade de Ohara, mas um casal idoso (Isao Natsuyagi e Naoko Ohtani) teima em permanecer na sua casa. O medo de nunca mais retornar a suas moradas é um trauma herdado da "catástrofe anterior" em Fukushima. A nora do casal (Megumi Kagurazaka, esposa do diretor) está grávida, adquire radiofobia e se veste como uma astronauta, razão pela qual é vítima de zombarias dos negacionistas. Outro casal jovem insiste em romper as barreiras policiais para visitar os escombros da cidade onde a moça morava.

Embora a maior parte do filme se passe nas casas do velho casal e do seu filho Yuichi (o mesmo nome do protagonista de Himizu), algumas sequências utilizam com grande dramaticidade as zonas evacuadas e destruídas pelo tsunami. Numa delas, de cunho um tanto fantástico, o jovem casal transgressor caminha em meio a uma vasta extensão de destroços, onde encontra duas crianças à procura de um disco dos Beatles (foto abaixo). A possibilidade de se tratar de fantasmas mirins não fica de todo afastada. Mais adiante, ao voltarem ao local, eles protagonizam um insólito pedido de casamento em paisagem pós-apocalíptica. Em outra cena impactante, a Sra. Cheiko, acometida de Alzheimer, foge de casa rumo à área contaminada e ali, sozinha entre ruínas cobertas de neve, imagina-se participando de uma festividade coletiva. O marido sai em seu encalço e carinhosamente a resgata.

Terra da Esperança
Terra da Esperança

Os restolhos da catástrofe ganham um sentido quase sobrenatural em Terra da Esperança. São áreas proibidas que os personagens invadem por teimosia ou demência. Por outro lado, pretendem servir como alerta quanto à perda de memória que leva à incúria para com o futuro. Em vários momentos do filme a televisão reporta sobre o desastre de Nagashima utilizando imagens de Fukushima. Não parece ser casual a escolha do nome Nagashima, que sugere uma contração de Nagasaki e Hiroshima, cenários de outras calamidades históricas do Japão.

Terra da Esperança

Sion Sono conta que cogitou de fazer um documentário sobre Fukushima, mas verificou que as pessoas não seriam completamente sinceras diante da câmera quanto eram em conversas privadas. Ele então preferiu ouvir diversas histórias, que deram a base para o roteiro de Terra da Esperança.  

 

 

A entregadora interplanetária

Três anos depois, Sion Sono voltava a Fukushima com um projeto ainda mais ousado em matéria de ressignificação das paisagens. A Estrela Sussurrante (Hiso hiso boshi) foi criado para um grande evento de arte com o tema da distopia. É um filme de ficção científica que adota a terra devastada pela catástrofe como se fossem planetas distantes. A crítica à reincidência dos erros humanos, mencionada em Terra da Esperança, se renova na epígrafe de A Estrela Sussurrante: "A Humanidade repetiu seus grandes desastres e monumentais fracassos, e a cada evento mais pessoas morrem".

 

No futuro aqui imaginado, após uma série de desastres nucleares, as máquinas passaram a controlar o espaço. A população agora é composta por 80% de robôs e 20% de humanos, estes constituindo uma espécie em extinção espalhada em diversos planetas e estrelas. 

 

Há 14 anos a androide Yoko Suzuki (mais uma vez Megumi Kagurazaka), conhecida também como Máquina nº 722, trabalha num serviço de entregas interplanetárias. Ela viaja numa nave alugada com o formato de bangalô japonês e ainda deve operar por mais 11 anos nesse ofício. Não fica descartada a hipótese de Yoko representar o futuro dos empregados supostamente autônomos da era neoliberal, dos quais grande parte atua no serviço de entregas. 

 

Nas longas jornadas entre um planeta e outro, ela cuida da nave como se fosse sua casa, ouve e grava em sussurros uma espécie de diário de bordo. A inteligência artificial da nave anuncia a iminência de um desastre: um meteorito vai cruzar a rota, e é preciso alterar o trajeto. Mas Yoko não atende, mantendo uma relação um tanto conflituosa que lembra a dos astronautas de 2001 – Uma Odisseia do Espaço com o computador Hal 9000.

 

As caixas a serem entregues contêm objetos aparentemente insignificantes, mas que podem ter grande valor afetivo. Tanto os remetentes quanto os destinatários são remanescentes humanos, na maioria idosos, que se negam a usar o teletransporte instantâneo. Querem preservar o sentimento envolvido na remessa tradicional no tempo e no espaço, mesmo que esta demande vários anos.

 

Yoko desembarca periodicamente em planetas chamados Wurtz, Hokok, Paracelos, Petsupa ou simplesmente #62678. Cada uma dessas escalas foi filmada numa área da cidade costeira de Namie e arredores. Ora Yoko explora grandes vazios pontuados por estruturas de ferro retorcido, ora cruza com escombros de edificações numa área litorânea. Numa praia, faz uma entrega a uma senhora que mantém móveis e gavetas cheios de areia. Em longo trajeto de bicicleta, percorre ruas ermas com casas e lojas evacuadas desde os dias que se seguiram à catástrofe.

A Estrela Sussurrante
A Estrela Sussurrante

​Os poucos humanos que ainda habitam esses planetas – interpretados por moradores das redondezas – agem como fantasmas de um outro tempo, ou como autômatos imóveis entre destroços. O cenário é de poluição, abandono e desesperança. Um silêncio sepulcral envolve tudo, aliando-se à imobilidade para configurar uma atmosfera pós-apocalíptica em sépia suave. Ao se aproximar do final, A Estrela Sussurrante troca Fukushima por cenários de estúdio, onde laivos mais calorosos de humanidade se mostram possíveis. A entrega final coloca Yoko em meio a silhuetas de pessoas em atividades familiares comuns, o que vai deixar uma semente de emoção no sistema operacional da androide. Um indício de esperança, apesar de possivelmente tarde demais.  

A Estrela Sussurrante
A Estrela Sussurrante