Griffith e Gance no front da I Guerra

​Aos Corações do Mundo / Eu Acuso!

​As duas guerras mundiais foram os primeiros grandes conflitos extensivamente registrados pelo cinema. A I Guerra encontrou a indústria cinematográfica em sua primeira expansão significativa e o cinema já entronizado como ferramenta de propaganda política. Em sua imensa maioria, os filmes produzidos sobre os combates de 1914-1918 eram noticiários, peças de promoção do esforço de guerra e melodramas patrioteiros. Um longa-metragem documental famoso, Battle of the Somme (1916), incluía uma sequência reconstituída com soldados cruzando barreiras de arame farpado, que o público tomava como parte das filmagens factuais. 

 

Obras de ficção importantes como Comradeship (1919) foram filmadas ainda durante a guerra, mas as sequências de batalhas eram frequentemente encenadas nos arredores de Londres. As exceções mais relevantes, no campo da ficção, foram assinadas por David W. Griffith e Abel Gance, diretores que de fato estiveram no front.

 

Uma pequena aldeia na França

​​​Griffith foi convidado pelo governo britânico para realizar um filme que estimulasse o sentimento antigermânico e ajudasse a levantar o moral dos ingleses rumo à vitória. A fama do cineasta e a expertise na direção de cenas de guerra demonstrada em O Nascimento de uma Nação (1915) justificavam os enormes recursos colocados a sua disposição para as filmagens de Aos Corações do Mundo (Hearts of the World – The Story of a Village). A trama, criada pelo próprio Griffith, se passa numa pequena aldeia do interior da França, onde um casal de namorados (The Boy e The Girl) é separado pela guerra. Enquanto o rapaz está no front, a aldeia é ocupada pelos alemães, que promovem saques, estupros e todo tipo de brutalidade. Por fim, tropas francesas e americanas chegam para expulsar o inimigo e restaurar a paz.

 

Aos Corações do Mundo - a aldeia destruída pelos alemães

Aos Corações do Mundo: a aldeia bombardeada pelos alemães

As filmagens se deram entre maio e outubro de 1917. A equipe teve acesso privilegiado a locações interditadas a jornalistas. Em aldeias e pequenas cidades atingidas por bombardeios foram feitas algumas panorâmicas e cenas complementares, inclusive com a participação da estrela Lilian Gish.

Aos Corações do Mundo

Aos Corações do Mundo: Lilian Gish na aldeia devastada

Griffith fez também duas viagens ao front para filmar as trincheiras e a rotina dos soldados, numa das quais foi surpreendido por um ataque da artilharia alemã. Consta que ficou decepcionado porque, ao contrário das guerras anteriores, os soldados sequer avistavam seus inimigos. De qualquer forma, algumas imagens que registrou foram editadas ao lado de trechos de cinejornais e das muitas sequências espetaculares de combate rodadas bem longe do perigo (nas planícies de Surrey, Salisbury e/ou Cambridge, conforme diferentes fontes), com soldados britânicos e canadenses. Outra grande parte do filme foi feita em Hollywood, nos massivos estúdios da Babilônia de Intolerância (Griffith, 1916).

 

Aos Corações do Mundo foi provavelmente o primeiro filme a incorporar cenários de catástrofes reais a um entrecho ficcional. Para o público, o fator "documental" incrementava o engajamento com a ficção, enquanto esta conferia aos relatos da guerra uma proximidade emocional que os newsreels e os filmes de propaganda não logravam proporcionar.

 

Primeira obra-prima do cinema pacifista

Ainda antes do fim da guerra, Abel Gance lançou-se na grande aventura de Eu Acuso! (J'Accuse). O roteiro, bem mais sofisticado que o de Aos Corações do Mundo, trata de um triângulo amoroso em meio aos horrores da I Guerra. Um homem violento se encontra no front com um poeta, amante de sua mulher. Superadas as tensões iniciais, eles se tornam grandes amigos. Enquanto isso, sua aldeia é invadida pelos alemães. O amante volta mais cedo e encontra a mulher com um filho resultante do estupro de um alemão. Quando o marido retorna, a rivalidade entre os dois se reacende, mas logo que a verdade é revelada ambos voltam ao front em busca de vingança.


Desde o início da guerra, Abel Gance queria se alistar no Serviço Cinematográfico do Exército francês, mas foi impedido por questões de saúde. Depois de iniciadas as filmagens de J'Accuse, em agosto de 1918, ele obteve, enfim, autorização para incorporar-se e filmar, ao que consta, em três campos de batalha ao lado das tropas americanas e francesas: Saint Mihiel, Verdun e Hattonchâtel. Essas imagens autênticas entraram na terceira parte do filme, em montagem de cortes rápidos, para representar as batalhas em que os dois protagonistas se vingam das atrocidades praticadas pelos alemães em sua aldeia.

Eu Acuso!
Eu Acuso! - soldados entram em Hattonchâtel

Eu Acuso! - soldados entram em Hattonchâtel

A guerra é, portanto, vista como questão pessoal, muito embora acabe conduzindo à morte ou à loucura. Eu Acuso é tido como a primeira obra-prima do cinema pacifista, ainda que conclame à valorização dos sacrifícios e dos soldados mortos em combate. É famosa a sequência culminante em que centenas de soldados ressuscitam e caminham de volta para suas terras de origem.


Abel Gance lançou mão de efeitos especiais, telas divididas, dupla exposição, associações alegóricas, letreiros e todo um arsenal de recursos de linguagem para transmitir sua indignação contra os que causam a guerra e lucram com ela. As filmagens em cenários reais, porém, nunca aparecem plenamente integradas à ação ficcional, como acontece em alguns poucos momentos de Aos Corações do Mundo. Elas são apenas intercaladas com as encenações, não obstante parecerem às vezes indissociáveis graças à excelência da montagem.

 

Em comum com o filme de Griffith temos a consagração das trincheiras como espaço dramático das interações, das emoções e da expressão do medo e da expectativa. As trincheiras passavam a ser os "interiores" das frentes de combate.