Escopo da pesquisa

Meu interesse nesse trabalho é observar as distintas formas como, desde a

I Guerra Mundial, os cineastas inseriram cenários pós-catastróficos reais ainda recentes em seus filmes de ficção. Os tratamentos variam muito, indo desde os dramas de sublimação da derrota nos filmes alemães do pós-II Guerra até a comédia romântica na Nouvelle Vague e a ficção científica no cinema japonês dos anos 2010.

 

A inserção de imagens históricas e trágicas reais na dramaturgia ficcional envolve questões éticas, estéticas, políticas e psicossociais. Por um lado, os filmes se beneficiam do mérito de agenciar as locações verídicas, o que assegura um substrato "documental" às tramas inventadas. Por outro, a simples presença de atores num cenário desse tipo denuncia uma falsificação, ou pelo menos uma fantasia. Integrar os elementos documentais e ficcionais tem sido o grande desafio dos realizadores e técnicos. Especialmente nos filmes que fazem uso referencial das paisagens, é preciso ao mesmo tempo dissimular o choque da ficção sobre o real e a intrusão do real na ficção.    

 

São muitos e diversificados os tratamentos dados às ruínas no cinema, do meramente pitoresco às conotações mais graves sobre o tempo, a memória ou o fracasso. Parece-me, então, necessário deixar claro que o escopo desta pesquisa não tem a ambição de fazer levantamento exaustivo. Em vez disso, abrange apenas exemplos característicos de filmes de ficção nos quais os cenários deixados por catástrofes reais (recentes em relação às respectivas produções) ocupam um lugar central ou têm grande importância simbólica para o tema abordado. Nesse sentido, valho-me da definição de Lúcia Ramos Monteiro para catástrofe como sendo o evento que provoca o fim de uma estrutura, uma forma, um espaço ou um ambiente.

 

Acho por bem mencionar as variantes que NÃO estão contempladas na pesquisa:

 

- Documentários ou registros de eventos catastróficos de qualquer espécie;

- Cenas factuais inseridas como simples ilustração, sem integração orgânica à trama ficcional;

- Filmes que reconstituem catástrofes, vale dizer, representações da catástrofe em seu curso;

- Ruínas cenográficas em filmes de qualquer gênero, embora sejam considerados alguns casos em que os destroços reais foram incrementados pela cenografia;

- Ruínas do mundo antigo, da Idade Média e outras épocas remotas, que já adquiriram status museográfico, ou de períodos muito distantes da produção dos filmes;

- Catástrofes humanitárias, como genocídios e pandemias, quando não produzem cenários físicos a serem utilizados ficcionalmente.

 

Assim se explica, por exemplo, que na obra de um cineasta fundamental para o "cinema de ruínas" como Roberto Rossellini, sejam aqui levados em conta Roma, Cidade Aberta, Paisà e Alemanha Ano Zero, que agenciavam as ruínas recentes da II Guerra Mundial, mas não o igualmente importante Viagem à Itália, que citava as ruínas remotas de Pompeia.    

Cumpre, ainda, distinguir entre dois tipos de emprego das imagens catastrográficas (para usar o termo cunhado por Victor Burgin), que determinaram os dois módulos da pesquisa: Modo referencial e Modo ressignificante.

 

O Modo referencial diz respeito aos filmes em que o cenário se reporta diretamente à catástrofe real e a um tempo aproximado, extraindo daí um sentido histórico e documental preciso. Alemanha Ano Zero, por exemplo, é uma construção ficcional em que as locações berlinenses se referem a si mesmas, naquele momento histórico determinado. Roma, Cidade Aberta, por sua vez, alude à própria Roma de meses antes das filmagens, portanto numa abordagem igualmente referencial.

 

O Modo ressignificante cobre os filmes que se apropriaram dos cenários para a recriação de outros eventos, hipóteses ou fantasias. Atribuem, assim, novos significados ficcionais às paisagens filmadas. O diretor Sion Sono, por exemplo, utilizou os cenários de devastação de Fukushima num filme sobre outro desastre fictício (Terra da Esperança) e num exercício de ficção científica passado em diferentes planetas (A Estrela Sussurrante).

 

Um terceiro módulo, Cinegrafia recorrente, reúne fotos e trechos de filmes que ilustram procedimentos de linguagem e sintagmas temáticos frequentes nesse tipo de produção. Muitos dos exemplos mencionados nos textos podem ser verificados visualmente naquele módulo.          

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