Fabulações na cidade de areia

O Rei Está Vivo / O Colecionador de Almas

Kolmanskop é uma das várias cidades fantasmas existentes no deserto da Namíbia. Foi construída por alemães em 1908 para viabilizar a exploração de diamantes. Com o esgotamento das jazidas locais, Kolmanskop foi abandonada em 1954. A areia do deserto foi aos poucos invadindo as casas e formando uma paisagem pós-apocalíptica. Um projeto de restauração no início dos anos 1980 transformou o lugar em atração turística e favoreceu o uso como locação cinematográfica. Pelo menos três filmes de ficção foram feitos ali: a coprodução britânico-sul-africana O Colecionador de Almas (1992), o dinamarquês O Rei Está Vivo (2000) e o português Serpentário (2019). A este último eu não consegui ter acesso.

 

Dos três, o único inteiramente filmado em Kolmanskop e que parece tirar melhor partido da locação é O Rei Está Vivo (The King is Alive), de Kristian Levring. Foi o quarto rebento do manifesto dinamarquês Dogma 95, que impunha regras draconianas a seus signatários, como não usar luz artificial, nem música, nem recursos de pós-produção. O deserto da Namíbia era um cenário perfeito para essas restrições. Nas proximidades de Kolmanskop, um ônibus com turistas de várias nacionalidades fica sem combustível, e os passageiros precisam passar vários dias no meio do nada, à espera de socorro. Começam então a fazer "um striptease das necessidades humanas básicas", como resume um dos personagens. Racismo, insatisfação conjugal, carências afetivas e instintos sexuais explodem junto com o desconforto, o calor, a falta de higiene e a debilidade física. A fim de seguir uma regra básica de sobrevivência (manter o moral elevado) e ao mesmo tempo barrar a barbárie sustentando um vínculo com a cultura, eles decidem se engajar numa leitura dramatizada do Rei Lear de Shakespeare.

 

Não há qualquer referência à condição real de Kolmanskop. A antiga vila de mineração, deserta e com suas casas invadidas pela areia, faz a ambientação adequada à nudez psicológica e à rusticidade que se sobrepõe ao verniz de civilização dos personagens. Enquanto ensaiam a peça ao ar livre, o sol inclemente torra as peles brancas e cozinha o pessimismo filosófico nórdico que parece afetar mesmo os que vêm de outras procedências.

O Rei Está Vivo

O Rei Está Vivo

O Rei Está Vivo

Kolmanskop serviu também às sequências culminantes de O Colecionador de Almas (Dust Devil), excêntrica produção de terror sobrenatural dirigida em 1992 por Richard Stanley. Wendy (Chelsea Field) é uma mulher em fuga do marido abusivo nas estradas da Namíbia. Ela dá carona a um homem misterioso, o Dust Devil (Robert Burke), encarnação dos ventos do deserto que caçam e matam humanos. Procurado pela polícia, ele mantém consigo uma coleção de dedos cortados de suas vítimas. Ao descobrir isso, Wendy consegue escapar e alcança a cidade tomada pela areia.

 

O cenário insólito é explorado de diversos ângulos, das panorâmicas sobre a cidade abandonada aos interiores invadidos por dunas de areia. Uma sequência se passa numa sala de cinema nessas condições. O desfecho tem o estilo dos spaghetti-westerns, com os confrontos finais se dando numa espécie de praça da cidade fantasma.

O Colecionador de Almas

O Colecionador de Almas: o cinema invadido pela areia

O Colecionador de Almas