A "casa" de curdos e sírios

100 Dias de Resistência / As Homing Pigeons

 

 

A luta da população curda pela conquista de um estado é uma das grandes questões que abalam o Oriente Médio desde meados do século XX. Os curdos habitam uma região que compreende partes do sul da Turquia, do oeste do Irã e do norte do Iraque e da Síria. Enquanto o Curdistão iraquiano conquistou relativa autonomia depois de décadas de conflitos, as três outras porções continuam sujeitadas ao poder dos respectivos países, que reprimem com violência as iniciativas separatistas.

 

Iniciado em novembro de 2015, um ciclo de embates entre guerrilheiros do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e a polícia e o Exército da Turquia destruiu completamente o histórico distrito Sur da cidade de Diyabarkir, a maior do Curdistão turco. Ainda assim, um pequeno grupo de guerrilheiros conseguiu expulsar as forças turcas e preservar o controle sobre a cidade. O chamado Cerco de Sur foi levado às telas no longa-metragem 100 Dias de Resistência (Ji Bo Azadiyê / The End Will Be Spectacular), de Ersin Çelik, lançado em 2019.

 

Este é basicamente um filme de guerra, com recursos relativamente altos de produção que se manifestam na pirotecnia dos combates. A narrativa é inicialmente conduzida pela jovem Zilan (Arjîn Baysal), que retorna a Diyabarkir em busca da memória de seu irmão, morto como mártir na luta contra o Estado Islâmico. Ela acaba por se envolver na resistência à invasão turca do distrito Sur, dissolvendo seu status de personagem principal em meio aos demais guerrilheiros.

 

Para esta nossa pesquisa, o que mais chama a atenção em 100 Dias de Resistência é o fato de ter sido filmado não em Diyabarkir, mas na cidade de Kobani, no Curdistão sírio. Kobani vivera situação semelhante em fins de 2014, quando foi cercada pelo Estado Islâmico e teve vários setores selvagemente devastados. A produção do filme fez essa opção em busca de maior segurança – Kobani, então, já era controlada pelos curdos – e por eventuais semelhanças entre a condição física das cidades. "Um monte de escombros, no fim das contas, se parece muito com outro monte de escombros", explicou Ersin Çelik numa entrevista. Çelik integra o coletivo Rojava Film Commune, formado na região autônoma curda.

100 Dias de Resistência

Estamos, portanto, a um passo da ressignificação dos cenários, de uma cidade para outra, separadas por 279 km. Da mesma forma, tanques e veículos de guerra, assim como uniformes, armas e cassetetes tomados ao Exército sírio em 2016 foram recauchutados e decorados pelos cenógrafos com os emblemas da Turquia. Embora sofra com um roteiro frágil do ponto de vista dramático, o filme combina com grande acuidade tomadas amplas da paisagem danificada de Kobani com ruelas e recantos da cidade cujas ruínas foram "incrementadas" pela direção de arte.

100 Dias de Resistência

O elenco se formou em boa parte por guerrilheiros curdos, sendo que dois deles estiveram ativos na resistência ao Cerco de Sur e fazem seus próprios papéis. A segurança ambicionada em Kobani não era garantida, uma vez que a guerra contra o Estado Islâmico prosseguia em áreas próximas da Síria. Relatos da equipe, majoritariamente curda, dão conta de que alguns membros foram mortos em bombardeios entre o início das filmagens e a finalização do filme. 

 

Lamento por Aleppo

 

A quase totalidade dos filmes rodados em Aleppo, capital econômica e cidade mais dilapidada pela guerra da Síria, são documentários sobre sua destruição, missões de resgate humanitário, etc. Entretanto é possível encontrar um curta-metragem que ficcionaliza o retorno de uma família ao centro de Aleppo para revisitar a casa onde morava. Em certa medida, o mote detonador é semelhante ao de 100 Dias de Resistência.

 

As Homing Pigeons ("Como pombos-correio" em tradução literal) foi realizado em 2015 pelo sírio Hannah Karim, cristão nascido em Aleppo e formado em cinema na França. Trata-se de um lamento pela cidade natal, desprovido de diálogos, sonorizado com uma trilha musical dolente e um comentário pesaroso em voz masculina sobre o dia em que os personagens teriam sido forçados a abandonar sua casa. Os cinco membros da família percorrem ruas desertas e as dependências de uma casa parcialmente demolida por bombas. Contemplam as ruínas e encontram resquícios de uma vida, como um violino, uma foto emoldurada, uma régua e até uma flor entre os destroços.

As Homing Pigeons
As Homing Pigeons
As Homing Pigeons

​Aleppo, listada entre as cidades mais antigas do mundo, havia se tornado a mais perigosa de todas na Terra. Hannah Karim enfoca suas ruínas com uma afirmação de esperança no regresso ao lar: "Pare de chorar. Amanhã nós voltaremos. Todos estamos esperando por isso. E até esse dia eu estarei esperando pelos pombos-correio. Porque estes jamais esquecem o caminho de volta à casa".

 

As Homing Pigeons pode ser visto aqui com a senha 123 (divulgada no IMDb). 

                                                      

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